por Guilherme de Faria
Estes são os Hai-Kais da Alma. Com isso quero dizer: não são hai-kais japoneses. Nasceram do espírito iluminado dessa moça brasileira, alemã, portuguesa, gaúcha. Sendo assim, muitos deles nos remetem a fontes de referências ocidentais, e soam como epigramas. No entanto (e isso nos impressiona), um grande número deles captou realmente o espírito japonês, isto é, Zen, com todo o seu despojamento, encanto e surpresa, produzindo aquelas ressonâncias internas, que sem serem propriamente simbolistas, despertam em nós uma pequena iluminação instantânea ( satori ) que, por uma fração de segundo, nos permite uma compreensão do todo, universal, para além do fato ou do instante capturado pelo poema:
1
Cai a noite
de astros silenciosa
Marchetada caixinha primorosa
Como Alma tornou íntima esta noite, como a caixinha marchetada de estrelas que cabe entre as mãos de sua alma!
2
O canto da cigarra
une meus segundos
numa linha contínua
Alma procura ater-se ( às vezes ), a temas prediletos dos grandes poetas japoneses: o canto das cigarras, um grilo, a lua, as estrelas, enfim: a natureza circundante, captada pela observação atenta dos seus verdadeiros amantes. A moça gaúcha tem naturalmente esse olhar, treinado talvez na coxilha e nos pampas da sua terra natal, na sua infância numa estância que, curiosamente, não aparece nos seus hai-kais. Ela prefere “niponisar” seus temas, para aproximá-los do espírito dos antigos hai-kais do Japão do tempo de Bashô. A propósito, Alma ama sobretudo esse grande poeta, andarilho, quase um monge, que ela gostaria de seguir em sua vida. Aqui cabe transcrever os dois tocantes hai-kais que Alma escreveu em sua homenagem:
227
Queria ouvir
aquela rã
do velho tanque
aludindo, tocantemente, àqueles célebres e intraduzíveis versos do velho bananeira ( significado do nome Bashô):
“ Velho tanque
rã salta
barulho de água”
Em seguida Alma pergunta:
228
Por onde andas
Bashô?
Em que sendas?
fazendo alusão ao famoso diário de viajem do velho andarilho, “ As sendas de Okku”.
No entanto, apesar do seu desejo, ainda não podemos imaginar essa bela moça, tão delicada, e de porte tão aristocrático, vivendo como um andarilho por este Brasil afora. Tudo, então, se passa, na verdade, em sua imaginação privilegiada, de artista que pode viver todos os mundos, do canto de seu ateliê urbano. Não podemos esquecer que Alma é pintora, contista e poeta... portanto uma exímia ilusionista. Mágica, como ela diz, prestidigitadora, que cria o pequeno “milagre atrás do truque”( maravilhoso achado de um seu poema ). Senão, vejamos:
29
Piano oculto
som esconde
a cauda imensa
( Um toque de humor! )
Ou:
31
Mortos queridos
voltem sempre
à alegre memória
Que delicadeza de inspiração! Convidar os mortos a voltar ao recinto alegre de sua memória. Que assim os quer, que assim escolheu os seus momentos...
30
Amores meus
acompanhem-me
subo esta colina
Alma convive com o passado, tornando-o vívido, compartilhando com os seus amores e com os seus mortos, o instante mágico do presente que prenuncia um ápice, adiante, talvez a própria morte... mas sem medo. Alma não abandona uma certa visão filosófica da vida:
32
Pinto o quadro deste dia
Assim os tenho eternos
o quadro e o dia
ou
18
Voltarei a este bosque
novamente
se este verão voltar
Este hai-kai nos remete, imediatamente, a Heráclito de Éfeso e o seu célebre “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio. Nós mesmos somos e não somos”. Alma certamente deve saber disso. Mas não podemos dizer que ela se lembrou, conscientemente, dele, ao escrever sua pequena jóia. O “novamente”, tendo o peso de um verso inteiro, é demasiado sugestivo: seria a condição impossível ( como o rio de Heráclito) para o mesmo grato verão voltar. Com isso ela nos lembra da fugacidade de tudo e do fluxo irrecorrível da vida, que ela parece aceitar com facilidade, somente porque confia sobretudo na reversibilidade do tempo interior, o de sua imaginação que tudo pode.
20
Ouço um sino.
Penso antes
na aldeia
Alma também gosta de brincar, ou parafrasear ditados populares, confiante no seu toque, que tudo transforma em hai-kai;
25
Uma andorinha
solitária exige
este pleno verão
Mas podemos também perceber um elemento psicológico de identificação da artista com a andorinha solitária, que, orgulhosa, revolta-se contra o destino, fazendo o seu próprio verão, isto é, seu universo, à medida de sua grandeza interior. Assim nos comove... como ela mesma se comove com pequenas coisas, como formigas no açúcar
26
Formigas no açucar
comovem
minha generosa mesa
ou
83
Pequenas coisas:
um grilo, um vagalume
talo de grama
Vejamos agora:
27
Sol pleno
pródigo olhar
nesta manhã qualquer
Alma tem uma gratidão enorme pela vida, que ela identifica naturalmente como advinda toda do sol ( ela está cientificamente correta). No entanto, ela atribui, poeticamente, um olhar “generoso” ( hai-kai 11) ou “pródigo” a este sol, identificando-o com a divindade. Por essas e outras, percebemos nela uma panteísta, que se aproxima dos antigos gregos. Se não, vejamos:
59
Raios de luz
entre as tábuas
alma bailarina
Este maravilhoso hai-kai “ocidental”, se podemos dizer assim, nos remete aos tempos teogônicos da filosofia grega, muito anterior aos chamados pré-socráticos. Nestes tempos arcaicos, identificados com a Era de Ouro, ou dos Heróis, o grego, ao reparar no pó que dança na luz, apontava e dizia: “isto é a alma”. ( a alma é um arché, ou arqué (princípio), algo que não tem começo e não tem fim, que tudo move e não é movido por nada, tal como os filamentos de pó que aparecem, flutuando, brilham por uma fração de segundo e desaparecem, infinitamente. Mas reparemos ( e isso é importante) que o grego não dizia: “isto é como a alma”. O grego antigo estava vendo a própria alma universal (psiqué), quando tinha esta corriqueira e ao mesmo tempo deslumbrante visão. Alma Welt captou isso com simplicidade, no seu maravilhoso hai-kai ( n°59 )
Mas voltemos a um hai-kai que nos faz ver a sua atenção para a dor alheia, que ela, por um instante, faz sua:
12
Jovem mendiga
em meu caminho
pequena dor necessária?
Sua pergunta faz entrever um laivo de revolta. Esta bela mulher, cumulada de dons, não poderia deixar de ser generosa...
41
Linchado tubarão
o mar era teu
não nosso
Alma deve ter visto aquelas espantosas imagens na televisão, recentemente, quando uma população praiana linchou um pequeno tubarão que se aproximou dolorosamente da areia, na água rasa da praia. Podemos imaginar os olhos verdes desta poetisa, escurecendo-se de revolta e dor, diante desta cena inaudita, de barbárie humana, com o pobre animal sendo atacado a pauladas e facadas. Mas, em seguida, sintomaticamente Alma escreve:
43
A chuva tamborila o peitoril
assim também
o bom e o vil
fazendo-nos ver que a sua revolta é passageira e que ela logo se reinstala em seu afastamento filosófico, que reconhece a relatividade do bem e do mal, diante das forças da natureza. Sua neutralidade de poeta, sua isenção ou imparcialidade, atestam a função captora e condensadora do artista, devolvendo o homem ao próprio homem, como imagem purificada, embelezadora, redentora. A poeticidade dos seres e das coisas...
“ O poeta”, como disse o grande crítico inglês Herbert Reed (a respeito de Shakespeare), “não é um filósofo nem um moralista, vivendo ao seu bel-prazer, somente em sintonia com o cristal terrível de uma mente intuitiva.”
Alma, ainda, sabendo-se tão bela, dá-se ao luxo de misturar-se à estética de um momento:
36
Sugestiva brisa brinca
escolhida mecha
em meu cabelo
ou
92
Flores do campo
enroscam-se nelas meus cabelos
quando as colho
Mas, para além da contemplação estética, nota-se ainda o narcisismo típico das belas mulheres:
167
As flores do meu corpo
me orgulham
frente ao espelho
ou
123
Mulher feliz
Bela me sinto
Grata
ou ainda
206
Um homem questionou-me:
És bela,
Porquê escreves?
Curiosamente, não se nota nenhum verdadeiro machismo na pergunta, da maneira que Alma a cita. A pergunta permanece no ar ressoando no espirito de quem viu essa maravilhosa mulher. Ela mesma reconhece como válida esta questão que se impõe ao seu espírito livre, puro e sem preconceitos. Ela sabe que a beleza é um mistério. Não nos consta que Helena de Tróia exercesse qualquer atividade além do seu fascínio, e de “seu rosto ter lançado ao mar mil navios” como no célebre verso do poeta elisabethano Christofer Marlowe.
Alma inaugura, talvez, um gênero sensual de hai-kai, motivada pelo prazer de sentir-se bela, às raias do auto-erotismo:
125
Abraço envolvente
engole-me
dissolvo-me em ti
ou
38
Olho minhas mãos
Meu coração
se abre para mim
ou ainda:
21
Meus seios
grata os beijaria
tão pequenos
e mais:
22
Meus pés
os amo
segundos dedos mais compridos
( reparem que a grafia do poema imita o formato de um pé)
Então, seu narcisismo a faz imaginar-se amada por um lago (de uma maneira maravilhosamente romântica):
24
Sento-me fiel
à beira deste lago
que viu meu corpo nu
.
Esta moça vive intensamente, com candura:
35
Meu coração dispara
Mais depressa sinto correr
juntos vida e amor
e quando beija uma criança, é fácil perceber-mos ser a sua própria criança interior:
33
Beijo-te os lábios
criança loura
pureza imortal
a mesma criança que brincava no jardim paterno, lá no Rio Grande, e fez bem cedo, a escolha da alegria:
40
Retorno a este jardim
onde a rosa colhi
da Alegria
e que notavelmente expressa esse retorno à infância, com aquele aparentemente enigmático
67
Antes o jardim:
Como criança
agarro a barba ao velho
Argüida por este prefaciador, sobre o que quisera dizer com este insólito hai-kai, Alma respondeu:
“Voltei à casa paterna alguns anos após a sua morte. Entrei pelo jardim, naturalmente, mas tive que me deter nele. Em volta da casa, coberto de margaridas, eu o senti como a barba que emoldurava o rosto de meu pai. Me vi então como uma criança que, sentada no colo de um velho, agarra com as mãozinhas, por curiosidade ou segurança, a sua barba.”
Reentrando nessa casa, Alma ouve os sons fantasmagóricos do seu belo passado, tão amado:
236
Um acalanto
no andar
de cima!
E quanto aos hai-kais amorosos deste vate feminino, que insinua de maneira original, neste gênero tão japonês, algo que antes não havia neles: o interlocutor amoroso!
178
Tocas-me os lábios
Não sabes
o perigo
e ainda
172
Meu amor chega...
Como sei
o meu amor?
191
Dás-me uma flor
Não podes
te conter
e a plena sensualidade:
192
Quero abrir-me
o corpo
como a alma
e
186
Teu toque de mão
desperta
lembranças da pele
Antes do encontro:
153
Devo encontrar-te:
já estás
em mim
E a preciosa sabedoria:
147
Espero alguém
O amor ...
Já o tenho
Depois de encontrado o amor:
150
Acordo com teu riso
Queres ver-me
admirar-te
106
Deito-me
não toco teu corpo
sonhamos juntos
142
Lábios em flor
externando
teus desejos
Muitos são os exemplos e eu não poderia transcreve-los todos neste estudo. Deixo, pois para comentá-los um a um , pelo número, no final do livro.
Por agora queria comentar ainda um outro aspecto dessa produção de hai-kais , os perfeitamente japoneses ( sem a métrica original 5,7,5, claro, somente possível em japonês), captadores do espírito Zen:
143
Manhã triste
Cai
a velha árvore
145
Sorri o velho
ainda
sorri o velho
146
Durmo na relva
Acordam-me
as abelhas laboriosas
152
Bosque escuro
Catedral de fungos
e raízes
101
Réstia de sol
Caligrafia de sombra
no papel vazio
e aquele à primeira vista insólito:
87
Peixe morto
por uma hora inteira
Gloriosa vida!
Questionada por mim, Alma contou-me que comprou um peixe para fazer o almoço e antes de cozinhá-lo, permaneceu, sem perceber, uma hora inteira observando o seu aspecto escama por escama, seu brilho prateado, sua forma hidrodinâmica perfeita, enfim, sua beleza, talvez para assimilar as formas e as cores para uma possível pintura. Deu-se, então, conta do tempo passado, pelo alarme do estômago e sorriu... O peixe morto só lhe lembrara a beleza da vida!
Quero agora referir-me a outro aspecto original de seus hai-kais: um filão de verdadeiros epitáfios, coisa inusual nos hai-kais japoneses, reportando-nos talvez, aos epigramas fúnebres do ocidente:
85
Meu epitáfio, isto:
flor plena
esculpida em dura pedra
onde alma resume sua própria visão de sua vida de beleza excepcional, por isso duradoura.
Ou ainda, também no túmulo futuro, lembrando aos passantes seu sugestivo nome:
81
Viajante que passas
vês meu nome
de ti te recordas...
Outro recado, talvez, como epitáfio
243
Amigos meus
Deixem sua flor
e partam
e ainda um epitáfio que revela o seu amor pela vida:
249
Meu nome: Mundo
vaticínio
de fidelidade
e finalmente a sua gloriosa profissão de fé, resumida, já com certa nostalgia:
250
Sentirei falta
da beleza
deste mundo
Diante de tantos epitáfios, poderíamos imaginar a nossa poetisa ligeiramente mórbida, obsecada com a idéia da morte? Sim, mas isso se deve a certamente a uma consciência histórica de si mesma, que, como artista a faz projetar-se no futuro, carregando neste movimento, seu passado e presente, tão amados. Mas, ela certamente preferiria completar o círculo perpétuo que ela sente ser a vida, voltando à casa paterna, com este melodioso hai-kai, que tão bem a descreve:
(130)
Meu pé na soleira
resume
vida inteira
FIM
Guilherme de Faria
9/07/2003
_________________________________________________________--
Hai-Kais da Alma
18/05/2006
1
Cai a noite
de astros silenciosa
Marchetada caixinha primorosa
2
O canto da cigarra
Une meus segundos
Numa linha contínua
3
Ouço o teu piano
longe ou perto
não moras aqui
4
Lua pálida
olhar-se quis
em meu sapato de verniz
5
Um suspiro
canta
se estou triste
6
Desenha para mim
sobre esta folha
podes ausentar-te
7
A sombra desta árvore
perfeita em meu caminho
prefiro contorná-la
8
A casca vazia
da cigarra
faz ouvir seu canto
9
Estrelas cadentes
vejo-as enfim
Noite perfeita
10
Subo este morro
Não posso evitar
já estar lá em cima
11
O sol em minha mesa
colore generoso
o meu almoço
12
Jovem mendiga
em meu caminho
pequena dor necessária ?
13
Levanto com o dia
Sua luz
é a cotovia
14
Pequeno borrão de tinta
Universo no papel
se penso nele
15
Silêncio de um minuto
Mais alto
que o rumor do dia
16
Corpo cansado
peço à alma
sua leveza
17
Uma folha cai
em minha sopa
Propícia refeição
18
Voltarei a este bosque
novamente
se este verão voltar
19
Caminhemos sobre a relva
mas calados
para ouvir o seu recado
20
Ouço um sino
Penso antes
na aldeia
21
Meus seios
grata os beijaria
tão pequenos
22
Meus pés
os amo
segundos dedos mais compridos
23
Palavras calam
ou exigem
seu exato peso
24
Sento-me fiel
à beira deste lago
que viu meu corpo nu
25
Uma andorinha
solitária exige
este pleno verão
26
Formigas no açúcar
comovem
minha generosa mesa
27
Sol pleno
pródigo olhar
nesta manhã qualquer
28
Batidas de martelo
ocorrem
fora e dentro
29
Piano oculto
som esconde
a cauda imensa
30
Amores meus
acompanhem-me
subo esta colina
31
Mortos queridos
voltem sempre
à alegre memória
32
Pinto o quadro deste dia
Assim os tenho eternos
o quadro e o dia
33
Beijo-te os lábios
criança loura
pureza imortal
34
Subo esta ladeira
Ela me conta
de minha vida o peso exato
35
Coração dispara
Mais depressa sinto correr
juntos vida e amor
36
Sugestiva brisa brinca
escolhida mecha
em meu cabelo
37
Primeiro dia do Verão
Porei os meus segredos
na janela?
38
Olho minhas mãos
Meu coração
se abre para mim
39
Verso verdadeiro
Privilégio sutil
que tudo paga
40
Retorno a este jardim
onde a rosa colhi
da Alegria
41
Linchado tubarão
o mar era teu
não nosso
42
A sombra cai
tomba o dia
Poderá a noite levantar-se?
43
A chuva tamborila o peitoril
Assim também
o bom e o vil
44
Um besouro dourado:
ouro menos falso
que o falado
45
Nuvens pesadas
muito ao longe
já pairam sobre mim
46
Sol e chuva
Misto coral
bem ensaiado
47
Cavalo na colina
Corre o vento
em sua crina
48
Uma moeda
lanço ao ar
Prefiro não olhar
49
Um rosto belo
mais ainda
se feliz
50
Gato caminha
tão leve pisa
Coisas agradecem
51
Nesta ponte
sombras que adivinho
uma foi minha
52
Subo a montanha uma vez
e logo após
Meu pincel é que é veloz
53
Luzidia maçã
ante meus olhos
fruto da memória
54
Pequenina mosca
sozinha
não és o Mal
55
Jovem que passa
teu andar permanece
em mim não passa
56
Trovões ao longe
a Terra toda
casa anoitecida
57
Barco sobre o mar
Sempre alguém
em todo lugar
58
Um latido de cão
refaz o cão
ou sua memória?
59
Raios de luz
entre as tábuas
alma bailarina
60
Ouço a árvore crescer
se a olho
por querer
61
Areia molhada
pés esperam
ser beijados
62
Linha tênue
olhar antigo
não se cansa
63
Dourada folha
aérea e seca
sabe mais que o verde
64
Primavera em meu jardim
espero
amar assim
65
Quase Inverno
um grilo na vidraça
por onde a vida passa
66
Fumo no telhado
atrai mais que o olhar
aroma imaginado
67
Antes o jardim:
como criança
agarro a barba ao velho
68
Cerejeiras não tenho
Sua intenção:
visível em meu jardim
69
Uma chávena de chá
é já
pequena cerimônia
70
Belo arco
não sei
se quero a seta
71
Moça
do elevador
sorriso encantador
72
Sonho matinal
interrompido não sei
do acontecido
73
Galo canta
cidade enorme
Onde um galo?
74
Silêncio denso
sono da madrugada
Por onde ando?
75
Noite triste
lâmpadas gritam
janela insone
76
Curta carta
perfeição
tu e tua ilusão
77
Faróis
pneus latem
lembro-me do silêncio
78
Esta flor
abandono-a
sei-a bem de cor
79
Crianças no jardim
Como sabem brincar
tão lindo assim?
80
Alta colina
mostro-me a ti
lá de cima
81
Viajante que passas
vês meu nome
de ti te recordas...
82
Livro aberto
Olha esta página,
sabe de mim um pouco
83
Pequenas coisas:
um grilo, um vagalume
talo de grama...
84
regato triste
suas águas
como podem não mais encantar?
85
Meu epitáfio, isto:
flor plena
esculpida em dura pedra
86
Velha casa
não olho para trás
rumores me chamam
87
Peixe morto
por uma hora inteira
gloriosa vida!
88
colho a flor
não te esqueças
de mim
89
Agitada rua
meu olhar colhe borboletas
no prado
90
Sob esta árvore
crescem cogumelos
sombras da memória
91
Uma jovem
Lembranças
ressoam mais antigas
92
Flores do campo
enroscam-se nelas meus cabelos
quando as colho
93
O lento cair das sombras
Imóvel
não perturbo
94
Cidade rumorosa
ouço por dentro
sino do entardecer
95
Com o sol.
Não posso dele
me roubar
96
Mãos dadas
não falo
também não ouço
97
Abro a gaveta
retiro meu segredo
troco-o de lugar
98
De longe
um canto
te antecede
99
Noite longa
mariposa quieta
na vidraça
100
Arco perfeito
menina pula corda
silenciosa sineta
101
Réstia de sol
caligrafia de sol
no papel vazio
102
Música no ar
briga com outra
em minha mente
103
Silêncio da montanha
inesquecível
na planície
104
Violino raro
na cidade estridente
cândido se ouve
105
Jovem mulher
mão perfeita
irei contigo
106
Deito-me
não toco teu corpo
sonhamos juntos
107
Grande árvore
universo e sombra
estão em ti
108
Ser poeta
televisor ligado
quase impossível
109
Desenho nítido
grita no papel
entre letras
110
Mestre Saint-Saens
não soube ouvir
oboé da Primavera
111
Ser moderna
nem sempre
ser eterna
112
Como Da Vinci
vestir-me de luxo
para pintar
113
Orquestra inteira
régio milagre
utopia possível
114
Homem ou mulher
só posso dizer
na solitária ilha
115
Música diz
sempre mais
do que quis
116
Mulher velha
trágica
se foi bela
117
Candido pássaro
na palmeira
Canteiro de avenida
118
Dinheiro sobre a mesa
rápido
oculta-se do olhar
119
Beijo
memória dos lábios
insidiosa volta
120
Nada fales
olha este cristal
comigo dentro
121
Poeta triste
só não lamentes
tua poesia
122
Volto ao jardim
das horas
tão só minhas
123
Mulher feliz
bela me sinto
grata
124
Sentindo este momento
sou nele
imortal
125
Abraço envolvente
engole-me
dissovo-me em ti
126
Poema perfeito
todo dia
lembrando
127
Viver assim
canto ingênuo
balido de cabra
128
Corpo
abraçada
não sinto o peso
129
Estrada da montanha
orgulho humano
relevado
130
Meu pé na soleira
resume
vida inteira
131
Celebração
Servem vinho
Falta a água
132
Toca a sineta
Amor hesita
dos dois lados
133
Olho o tempo
Olhos pra dentro
Janela clara
134
Leve curva
descendente
ocaso dos lábios
135
Olhos tão claros
ofuscam
minha entrada
136
Seu riso
celebrarei
ou devo esquecer
137
Caminho pela estrada
não volto
chegarei na partida
138
Mesma mesa
de comer, de brincar
e escrever
139
Leio tua mão
as costas
não a palma
140
Pinto um quadro
Há um poema
aqui
141
Cristal perfeito
Redundância
do cristal
142
Lábios em flor
externando
teu desejo
143
Manhã triste
Cai
a velha árvore
144
Cortam-me a luz
Velando escrevo
este poema
145
Sorri o velho
ainda
sorri o velho
146
Durmo na relva
Acordam-me
as abelhas laboriosas
147
Espero alguém
O amor
já o tenho
148
Belo dia
Uma criança
quis beijar-me
149
Um cisco no olho
Pode ser
este poema?
150
Acordo com teu riso
Queres ver-me
admirar-te
151
Olho-me no regato
quisera
o caminho das pedras
152
Bosque escuro
Catedral de fungos
e raízes
153
Devo encontrar-te
Já estás
em mim
154
Casa abandonada
o coração
estala
155
Auspiciosa manhã
Não devo nada
O telefone toca
156
Percorro a trilha
na cidade
desconhecida trilha
157
Prazer desta manhã
condição
para este dia
158
Será esta campina?
Não mais
as mesmas flores
159
Alguém beijou-me os lábios
sorrateiro
enquanto eu dormia
160
Sono perfeito
Ergo-me
cheia de desejos
161
Meus cabelos
dourados
ouro efêmero
162
Inverno na alma
Nunca mais
inverno assim
163
Alegria de um momento
eterna
no coração gravada
164
Teu toque de mão
desperta
lembranças da pele
165
Pinto um quadro
que tão amado
não repetirei
166
Planto flores
onde guardava
tintas venenosas
167
As flores do meu corpo
me orgulham
frente ao espelho
168
Mulher
bela agradeço
não só ao espelho
169
Menina alegre
fica aqui
para sempre
170
Um montanha
ocupou-me
toda a manhã
171
Velha
acharei fútil
este pensamento?
172
Meu amor chega
Como sei
o meu amor?
173
Escrevo um verso
outro verso
ciumento do primeiro
174
Cidade estrangeira
o silêncio
me acordou
175
Não ouvir um grito
me assusta
Noite imóvel
176
Não há vento
lembro-me
de um barco
177
Copo cheio
busca
seu vazio
178
Tocas-me os lábios
não sabes
o perigo
179
Ando pelas ruas
Meu bairro
me conhece?
180
Quanto armazeno
lançando fora
no papel!
181
Riqueza imensa
minha vida
agradecida
182
Deus me quer
assim alegre
na pobreza
183
Amiga triste
mora comigo
o desafio
184
Volta amanhã
trazendo-me
meus beijos
185
Meu desejo
não permite
outro poema
186
Penetrada
sou
este verso
187
Criança que corres
para mim
sabes-me criança
188
Escrever assim
tantos versos
sublime teimosia
189
Olham-me assim
abanando a cabeça
sorrindo
190
Quando for velha
isto será
verso verdadeiro?
191
Dás-me uma flor
Não podes
te conter
192
Quero abrir-me
o corpo
como a alma
193
Posso
conter-me
neste simples viver?
194
Copo despejado
Pronto
para encher-se
195
Contaste-me um segredo
não sei
qual o segredo
196
Misteriosa vida
plena e clara
em seu mistério
197
Olha-me na alma
Estou nua
no papel
198
Teus lábios tocam
meus lábios
antes do beijo
199
Teus olhos
acariciam
meus olhos
200
Meu desejo
pérola quente
nacarada
201
Meu desejo
pérola tirada
de sua concha
202
Meus olhos
tocam
teu desejo
203
Onda quente
Surfas
minha pele
204
Manhã de inverno
meus passos
na ladeira
205
Estrela da tarde
queres brilhar
sozinha
206
Noite estranha
Não conheço
esta noite
207
As "vagas estrelas"
eu vi
do poema
208
Um homem questionou-me:
És bela,
por quê escreves?
209
Varro a casa
Nada preciso
esconder
210
Dei a mão à louca
Não quis mais
largá-la
211
Para pintar teu rosto
começarei
por teu silencio
212
Vês este poema?
Nasce
sob teus olhos
213
Amigos me rodeiam
Círculo
de fumaça
214
Olho as nuvens
Ah! conhecer
o seu pastor
215
Deste-me um anel
Pensas talvez
aprisionar-me?
216
Preparo o peixe
que trouxeste
engenhoso
217
Não fumes
sem olhar
a fumaça
218
Maravilhosa abelha
começarei
por tuas asas
219
Borboletas não vejo
Fazem falta
em meus dias
220
Não tenho mais jardim
Pinto flores
neste espelho
221
Hoje
tocaram-me o rosto
quase a alma
222
Meus dias
passam
como peregrinos
223
Onde ando
de casa
tão distante?
224
Meus sonhos
vagam
vagabundos
225
Não tenho ambição
nestes dias
perfeitos
226
Se quero muito
sofro
Queria não querer
227
Queria ouvir
aquela rã
do velho tanque
228
Por onde andas
Bashô?
Em que sendas?
229
Dói-me a graça
de viver
amando tudo
230
Trazes-me um presente:
um ninho,
para veres-me chorar
231
Noite escura
não olharei
tuas estrelas
232
Dispo-me
quando quero
encontrar-me
233
Olho-me no espelho
venero a Deus
em minha beleza
234
Renovo neste dia
meus votos
de alegria
235
Dinheiro não tenho
Escolhi viver
de poesia
236
Um acalanto
no andar
de cima!
237
Belas coisas
me cercam:
eu as atraio
238
Não posso viver
sem beleza
Alguém pode?
239
Teu riso
tua infância
me revela
240
Homem sem lábios
desconfio
de ti
241
Dizes-me amar-me
Nada pois
te falta
242
Amiga minha
Fronteira tênue
do desejo
243
Amigos meus
deixem sua flor
e partam
244
Serei monja
um dia?
Continuo a pintar
245
Tantos poemas
me enriquecem
no papel
246
Há quem viva
sem poesia
Meu espanto
247
Terei discípulos?
Não farei
esta pergunta
248
Meu nome: Mundo
vaticínio
de fidelidade
249
Sentirei falta
da beleza
deste mundo
250
Tudo tenho
sou
nada preciso
251
Árvore da vida
simples
macieira amanhecida
252
Ouço um choro
essa dor
agora é minha
253
Passas deslizando
tua elegancia
contamina
254
Não direi
o que escrito está
em minha testa
255
Ando pela vida
a vida me retribui
anda por mim
256
Agarro o sentido
não o momento
esse deixo passar
257
Se me queres
deixa-me
sou tua
258
Ouço murmúrios
Querem
minha atenção
259
Pipa no ar
alguém manda
recado auspicioso
260
Trovão
Zeus morreu
seus raios não
261
Pausa na estrada
respeito
pelo caminho
262
À sombra dos pomos
Ingênuo balanço
Alegres dispomos
263
Feliz me queira
Traz-me de volta
Velha macieira
264
Outono: folha ia
pondo-se rubra
uma paixão tardia
265
Solitária sombra
Breve hiato
Na estrada ensolarada266
Grande árvore
Silêncio profundo
A colina
adormece
Sepulcro de cal
Dormirá o morto
Em paz afinal?
Dormirá o morto
Em paz afinal?
268
Os mortos gritam
Os corvos
Os imitam
Os corvos
Os imitam
269
Não há mais
briga
Morte recupera
Sabedoria Antiga
Morte recupera
Sabedoria Antiga
Reverei este
campo
Quando as flores voltarem
Ou nunca mais
Quando as flores voltarem
Ou nunca mais
De nós sabemos
O pouco Que podemos
Riso ilumina
Noite tristeAfinal termina
273
Sinos dobram
Nem posso
perguntar por quem?
274
As cigarras cantam
Como outrora
Quando as cigarras cantavam
275
Pensas amar
Talvez o faças
Um dia de sol
276
Dia triste
Um belo dia
Para morrer de amor
277
Aceno distante
É sempre para mim
um aceno distante
278
Os dias deslizam
Silenciosos
Sobre as neves de agora
279
Meus sonhos
Nuvens douradas
No poente distante
280
Tenho um pássaro
Libertei-o
Ele está comigo
281
Suspiros na noite
Todos temos
Alguma dor
282
Clamores na noite
Todos temos
Alguma culpa
283
Um poema cai
Das folhas
Esquecido
284
Árvores amigas
Estranhamente
Indiferentes
285
Abraço a amiga
Penso amá-la
Se ela deixar-se
286
Um gato dorme
Sobre minha cama
E mal o conheço
287
o verão começa
sei que vou amar
como se último verão
288
doces lembranças
voltam
mais doces
289
ando na relva
meus pés descalços
acariciam o mundo
290
minha sombra
olho esta íntima
desconhecida
291
escrevo um livro
para alguém
que desconheço
292
pago um verso
na areia
não em mim
293
minhas pegadas
não na areia
mas no mundo
294
os sapos cantam
me reconfortam
os sapos ainda cantam
295
cão no monte
latindo
para o horizonte
296
crianças lindas
enfeite precioso
renova o mundo
297
cerejeira em meu jardim
trás o Japão
até mim
298
cansada estou
de saber
como vou
299
todos queremos
fechar a porta
em que batemos
300
o ser humano
ainda é pouco
pra ser humano
301
meus dentes
me acompanham
sorridentes
302
se canto
fico perto
de mim
303
se fujo
em mim
tenho refúgio
304
o melhor dia
é hoje
de todos
305
Procuro sombra
Para que descanse
Minha laboriosa sombra
306
amoreira bela
minhas fugas
pela janela
307
minhas pegadas
não na areia
mas no mundo
308
Os sapos cantam
Me reconfortam
sapos ainda cantam
309
Grilos barulhentos
Da minha estância
me alegram
310
crianças lindas
enfeite precioso
renova o mundo
311
cerejeira em meu jardim
trás o Japão
até mim
312
recordações
já as peneirei
ornam meus dias
313
meu tesouro
é num soneto
chave de ouro
314
o que tenho
dei de mim
por isso tenho
315
um único poente
me converte
de repente
316
tua tristeza
revestida
de beleza
317
mão estendida eu agarro
não porque precise
mas porque é tão raro
318
caminhar contra o vento
é tudo o que se pode
com um forte pensamento
319
o dia envelheceu
mas leal cumpriu
o que prometeu
320
o poeta virou estátua
que coisa estranha
que coisa fátua
321
diz a vetusta matrona
junto ao corpo do defunto
vou vender tua poltrona
322
arco-íris ao léu
ainda é coisa da terra
sonhando coisa do céu
caminhar contra o vento
é tudo o que se pode
com um forte pensamento
319
o dia envelheceu
mas leal cumpriu
o que prometeu
320
o poeta virou estátua
que coisa estranha
que coisa fátua
321
diz a vetusta matrona
junto ao corpo do defunto
vou vender tua poltrona
322
arco-íris ao léu
ainda é coisa da terra
sonhando coisa do céu
2 comentários:
Lúcia, é também nos pequenos versos que vivem os encantos da Alma, inclusive naquele tão lindo onde há grilos e delicadas criaturas da natureza!! Ai, que lindo este recanto de hai-kais originais. Até hoje eu não consegui escrever um hai-kai > aproveitarei para aprender com ela. Beijos!! P.S.: obrigada pelo seu incentivo e visitas adoráveis aos meus cantinhos pela internet.
Lu!
tava dando uma volta pelos recantos da impressionante Alma, e o que encontrei aqui, magnífico...
haikais ótimos, e alguns excepcionais no melhor dos sentidos...gostei mesmo...!
e outra...tava lendo tuas cartas, no teu blog...adorei, muito vivas mesmo, e se me permite, mais espontâneas que as da Alma, na minha opinião...algumas bem sobrias, é verdade, mas como vc mesma disse, o pampa tem um lado muito sombrio por si só, e é essa uma verdade muito bem expressa numa das cartas...sentia exatamente isso nos arredores de caxias...e outras vezes um sentimento ainda mais sombrio nos arredores das indústrias abandonadas...
o belo espírito obscuro do sul...
quanto ao teu comment, gostei...é um poema antigo, que eu gosto muito mesmo, posso dizer que um dos meus preferidos...embora tenha mostrado pra algumas pessoas que não gostaram muito...bom, azar...rs
no mais, ótimo...falamos em breve
beijos!
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