segunda-feira, 15 de novembro de 2010


Capa de HAI KAIS de Alma Welt, com aquarela da autora

terça-feira, 23 de outubro de 2007



Uma das inúmeras aquarela de Alma Welt que ilustram
o livro

Hai Kais de Alma Welt

PREFÁCIO AOS HAI-KAIS de ALMA WELT
por Guilherme de Faria

Estes são os Hai-Kais da Alma. Com isso quero dizer: não são hai-kais japoneses. Nasceram do espírito iluminado dessa moça brasileira, alemã, portuguesa, gaúcha. Sendo assim, muitos deles nos remetem a fontes de referências ocidentais, e soam como epigramas. No entanto (e isso nos impressiona), um grande número deles captou realmente o espírito japonês, isto é, Zen, com todo o seu despojamento, encanto e surpresa, produzindo aquelas ressonâncias internas, que sem serem propriamente simbolistas, despertam em nós uma pequena iluminação instantânea ( satori ) que, por uma fração de segundo, nos permite uma compreensão do todo, universal, para além do fato ou do instante capturado pelo poema:

1
Cai a noite
de astros silenciosa
Marchetada caixinha primorosa

Como Alma tornou íntima esta noite, como a caixinha marchetada de estrelas que cabe entre as mãos de sua alma!

2
O canto da cigarra
une meus segundos
numa linha contínua

Alma procura ater-se ( às vezes ), a temas prediletos dos grandes poetas japoneses: o canto das cigarras, um grilo, a lua, as estrelas, enfim: a natureza circundante, captada pela observação atenta dos seus verdadeiros amantes. A moça gaúcha tem naturalmente esse olhar, treinado talvez na coxilha e nos pampas da sua terra natal, na sua infância numa estância que, curiosamente, não aparece nos seus hai-kais. Ela prefere “niponisar” seus temas, para aproximá-los do espírito dos antigos hai-kais do Japão do tempo de Bashô. A propósito, Alma ama sobretudo esse grande poeta, andarilho, quase um monge, que ela gostaria de seguir em sua vida. Aqui cabe transcrever os dois tocantes hai-kais que Alma escreveu em sua homenagem:
227
Queria ouvir
aquela rã
do velho tanque
aludindo, tocantemente, àqueles célebres e intraduzíveis versos do velho bananeira ( significado do nome Bashô):
“ Velho tanque
rã salta
barulho de água”

Em seguida Alma pergunta:
228
Por onde andas
Bashô?
Em que sendas?

fazendo alusão ao famoso diário de viajem do velho andarilho, “ As sendas de Okku”.

No entanto, apesar do seu desejo, ainda não podemos imaginar essa bela moça, tão delicada, e de porte tão aristocrático, vivendo como um andarilho por este Brasil afora. Tudo, então, se passa, na verdade, em sua imaginação privilegiada, de artista que pode viver todos os mundos, do canto de seu ateliê urbano. Não podemos esquecer que Alma é pintora, contista e poeta... portanto uma exímia ilusionista. Mágica, como ela diz, prestidigitadora, que cria o pequeno “milagre atrás do truque”( maravilhoso achado de um seu poema ). Senão, vejamos:
29
Piano oculto
som esconde
a cauda imensa

( Um toque de humor! )
Ou:
31
Mortos queridos
voltem sempre
à alegre memória

Que delicadeza de inspiração! Convidar os mortos a voltar ao recinto alegre de sua memória. Que assim os quer, que assim escolheu os seus momentos...

30
Amores meus
acompanhem-me
subo esta colina

Alma convive com o passado, tornando-o vívido, compartilhando com os seus amores e com os seus mortos, o instante mágico do presente que prenuncia um ápice, adiante, talvez a própria morte... mas sem medo. Alma não abandona uma certa visão filosófica da vida:
32
Pinto o quadro deste dia
Assim os tenho eternos
o quadro e o dia

ou

18
Voltarei a este bosque
novamente
se este verão voltar

Este hai-kai nos remete, imediatamente, a Heráclito de Éfeso e o seu célebre “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio. Nós mesmos somos e não somos”. Alma certamente deve saber disso. Mas não podemos dizer que ela se lembrou, conscientemente, dele, ao escrever sua pequena jóia. O “novamente”, tendo o peso de um verso inteiro, é demasiado sugestivo: seria a condição impossível ( como o rio de Heráclito) para o mesmo grato verão voltar. Com isso ela nos lembra da fugacidade de tudo e do fluxo irrecorrível da vida, que ela parece aceitar com facilidade, somente porque confia sobretudo na reversibilidade do tempo interior, o de sua imaginação que tudo pode.

20
Ouço um sino.
Penso antes
na aldeia

Alma também gosta de brincar, ou parafrasear ditados populares, confiante no seu toque, que tudo transforma em hai-kai;

25
Uma andorinha
solitária exige
este pleno verão


Mas podemos também perceber um elemento psicológico de identificação da artista com a andorinha solitária, que, orgulhosa, revolta-se contra o destino, fazendo o seu próprio verão, isto é, seu universo, à medida de sua grandeza interior. Assim nos comove... como ela mesma se comove com pequenas coisas, como formigas no açúcar

26
Formigas no açucar
comovem
minha generosa mesa

ou
83
Pequenas coisas:
um grilo, um vagalume
talo de grama


Vejamos agora:
27
Sol pleno
pródigo olhar
nesta manhã qualquer

Alma tem uma gratidão enorme pela vida, que ela identifica naturalmente como advinda toda do sol ( ela está cientificamente correta). No entanto, ela atribui, poeticamente, um olhar “generoso” ( hai-kai 11) ou “pródigo” a este sol, identificando-o com a divindade. Por essas e outras, percebemos nela uma panteísta, que se aproxima dos antigos gregos. Se não, vejamos:
59
Raios de luz
entre as tábuas
alma bailarina
Este maravilhoso hai-kai “ocidental”, se podemos dizer assim, nos remete aos tempos teogônicos da filosofia grega, muito anterior aos chamados pré-socráticos. Nestes tempos arcaicos, identificados com a Era de Ouro, ou dos Heróis, o grego, ao reparar no pó que dança na luz, apontava e dizia: “isto é a alma”. ( a alma é um arché, ou arqué (princípio), algo que não tem começo e não tem fim, que tudo move e não é movido por nada, tal como os filamentos de pó que aparecem, flutuando, brilham por uma fração de segundo e desaparecem, infinitamente. Mas reparemos ( e isso é importante) que o grego não dizia: “isto é como a alma”. O grego antigo estava vendo a própria alma universal (psiqué), quando tinha esta corriqueira e ao mesmo tempo deslumbrante visão. Alma Welt captou isso com simplicidade, no seu maravilhoso hai-kai ( n°59 )
Mas voltemos a um hai-kai que nos faz ver a sua atenção para a dor alheia, que ela, por um instante, faz sua:

12
Jovem mendiga
em meu caminho
pequena dor necessária?

Sua pergunta faz entrever um laivo de revolta. Esta bela mulher, cumulada de dons, não poderia deixar de ser generosa...

41
Linchado tubarão
o mar era teu
não nosso

Alma deve ter visto aquelas espantosas imagens na televisão, recentemente, quando uma população praiana linchou um pequeno tubarão que se aproximou dolorosamente da areia, na água rasa da praia. Podemos imaginar os olhos verdes desta poetisa, escurecendo-se de revolta e dor, diante desta cena inaudita, de barbárie humana, com o pobre animal sendo atacado a pauladas e facadas. Mas, em seguida, sintomaticamente Alma escreve:

43
A chuva tamborila o peitoril
assim também
o bom e o vil

fazendo-nos ver que a sua revolta é passageira e que ela logo se reinstala em seu afastamento filosófico, que reconhece a relatividade do bem e do mal, diante das forças da natureza. Sua neutralidade de poeta, sua isenção ou imparcialidade, atestam a função captora e condensadora do artista, devolvendo o homem ao próprio homem, como imagem purificada, embelezadora, redentora. A poeticidade dos seres e das coisas...
“ O poeta”, como disse o grande crítico inglês Herbert Reed (a respeito de Shakespeare), “não é um filósofo nem um moralista, vivendo ao seu bel-prazer, somente em sintonia com o cristal terrível de uma mente intuitiva.”
Alma, ainda, sabendo-se tão bela, dá-se ao luxo de misturar-se à estética de um momento:
36
Sugestiva brisa brinca
escolhida mecha
em meu cabelo
ou
92
Flores do campo
enroscam-se nelas meus cabelos
quando as colho

Mas, para além da contemplação estética, nota-se ainda o narcisismo típico das belas mulheres:

167
As flores do meu corpo
me orgulham
frente ao espelho

ou
123
Mulher feliz
Bela me sinto
Grata

ou ainda

206
Um homem questionou-me:
És bela,
Porquê escreves?

Curiosamente, não se nota nenhum verdadeiro machismo na pergunta, da maneira que Alma a cita. A pergunta permanece no ar ressoando no espirito de quem viu essa maravilhosa mulher. Ela mesma reconhece como válida esta questão que se impõe ao seu espírito livre, puro e sem preconceitos. Ela sabe que a beleza é um mistério. Não nos consta que Helena de Tróia exercesse qualquer atividade além do seu fascínio, e de “seu rosto ter lançado ao mar mil navios” como no célebre verso do poeta elisabethano Christofer Marlowe.

Alma inaugura, talvez, um gênero sensual de hai-kai, motivada pelo prazer de sentir-se bela, às raias do auto-erotismo:

125
Abraço envolvente
engole-me
dissolvo-me em ti

ou
38
Olho minhas mãos
Meu coração
se abre para mim

ou ainda:

21
Meus seios
grata os beijaria
tão pequenos

e mais:

22
Meus pés
os amo
segundos dedos mais compridos

( reparem que a grafia do poema imita o formato de um pé)

Então, seu narcisismo a faz imaginar-se amada por um lago (de uma maneira maravilhosamente romântica):
24
Sento-me fiel
à beira deste lago
que viu meu corpo nu
.
Esta moça vive intensamente, com candura:
35
Meu coração dispara
Mais depressa sinto correr
juntos vida e amor

e quando beija uma criança, é fácil perceber-mos ser a sua própria criança interior:

33
Beijo-te os lábios
criança loura
pureza imortal

a mesma criança que brincava no jardim paterno, lá no Rio Grande, e fez bem cedo, a escolha da alegria:
40
Retorno a este jardim
onde a rosa colhi
da Alegria

e que notavelmente expressa esse retorno à infância, com aquele aparentemente enigmático

67
Antes o jardim:
Como criança
agarro a barba ao velho

Argüida por este prefaciador, sobre o que quisera dizer com este insólito hai-kai, Alma respondeu:
“Voltei à casa paterna alguns anos após a sua morte. Entrei pelo jardim, naturalmente, mas tive que me deter nele. Em volta da casa, coberto de margaridas, eu o senti como a barba que emoldurava o rosto de meu pai. Me vi então como uma criança que, sentada no colo de um velho, agarra com as mãozinhas, por curiosidade ou segurança, a sua barba.”

Reentrando nessa casa, Alma ouve os sons fantasmagóricos do seu belo passado, tão amado:
236
Um acalanto
no andar
de cima!

E quanto aos hai-kais amorosos deste vate feminino, que insinua de maneira original, neste gênero tão japonês, algo que antes não havia neles: o interlocutor amoroso!
178
Tocas-me os lábios
Não sabes
o perigo

e ainda
172
Meu amor chega...
Como sei
o meu amor?

191
Dás-me uma flor
Não podes
te conter

e a plena sensualidade:

192
Quero abrir-me
o corpo
como a alma
e
186
Teu toque de mão
desperta
lembranças da pele


Antes do encontro:

153
Devo encontrar-te:
já estás
em mim

E a preciosa sabedoria:

147
Espero alguém
O amor ...
Já o tenho

Depois de encontrado o amor:
150
Acordo com teu riso
Queres ver-me
admirar-te

106
Deito-me
não toco teu corpo
sonhamos juntos


142
Lábios em flor
externando
teus desejos

Muitos são os exemplos e eu não poderia transcreve-los todos neste estudo. Deixo, pois para comentá-los um a um , pelo número, no final do livro.
Por agora queria comentar ainda um outro aspecto dessa produção de hai-kais , os perfeitamente japoneses ( sem a métrica original 5,7,5, claro, somente possível em japonês), captadores do espírito Zen:
143
Manhã triste
Cai
a velha árvore

145
Sorri o velho
ainda
sorri o velho

146
Durmo na relva
Acordam-me
as abelhas laboriosas


152
Bosque escuro
Catedral de fungos
e raízes

101
Réstia de sol
Caligrafia de sombra
no papel vazio

e aquele à primeira vista insólito:
87
Peixe morto
por uma hora inteira
Gloriosa vida!

Questionada por mim, Alma contou-me que comprou um peixe para fazer o almoço e antes de cozinhá-lo, permaneceu, sem perceber, uma hora inteira observando o seu aspecto escama por escama, seu brilho prateado, sua forma hidrodinâmica perfeita, enfim, sua beleza, talvez para assimilar as formas e as cores para uma possível pintura. Deu-se, então, conta do tempo passado, pelo alarme do estômago e sorriu... O peixe morto só lhe lembrara a beleza da vida!

Quero agora referir-me a outro aspecto original de seus hai-kais: um filão de verdadeiros epitáfios, coisa inusual nos hai-kais japoneses, reportando-nos talvez, aos epigramas fúnebres do ocidente:
85
Meu epitáfio, isto:
flor plena
esculpida em dura pedra

onde alma resume sua própria visão de sua vida de beleza excepcional, por isso duradoura.
Ou ainda, também no túmulo futuro, lembrando aos passantes seu sugestivo nome:
81
Viajante que passas
vês meu nome
de ti te recordas...

Outro recado, talvez, como epitáfio
243
Amigos meus
Deixem sua flor
e partam

e ainda um epitáfio que revela o seu amor pela vida:
249
Meu nome: Mundo
vaticínio
de fidelidade

e finalmente a sua gloriosa profissão de fé, resumida, já com certa nostalgia:
250
Sentirei falta
da beleza
deste mundo

Diante de tantos epitáfios, poderíamos imaginar a nossa poetisa ligeiramente mórbida, obsecada com a idéia da morte? Sim, mas isso se deve a certamente a uma consciência histórica de si mesma, que, como artista a faz projetar-se no futuro, carregando neste movimento, seu passado e presente, tão amados. Mas, ela certamente preferiria completar o círculo perpétuo que ela sente ser a vida, voltando à casa paterna, com este melodioso hai-kai, que tão bem a descreve:

(130)

Meu pé na soleira
resume
vida inteira

FIM
Guilherme de Faria
9/07/2003

_________________________________________________________--


Hai-Kais da Alma
18/05/2006

1
Cai a noite
de astros silenciosa
Marchetada caixinha primorosa

2
O canto da cigarra
Une meus segundos
Numa linha contínua

3
Ouço o teu piano
longe ou perto
não moras aqui

4
Lua pálida
olhar-se quis
em meu sapato de verniz

5
Um suspiro
canta
se estou triste

6
Desenha para mim
sobre esta folha
podes ausentar-te

7
A sombra desta árvore
perfeita em meu caminho
prefiro contorná-la

8
A casca vazia
da cigarra
faz ouvir seu canto

9
Estrelas cadentes
vejo-as enfim
Noite perfeita

10
Subo este morro
Não posso evitar
já estar lá em cima

11
O sol em minha mesa
colore generoso
o meu almoço

12
Jovem mendiga
em meu caminho
pequena dor necessária ?

13
Levanto com o dia
Sua luz
é a cotovia

14
Pequeno borrão de tinta
Universo no papel
se penso nele

15
Silêncio de um minuto
Mais alto
que o rumor do dia

16
Corpo cansado
peço à alma
sua leveza

17
Uma folha cai
em minha sopa
Propícia refeição

18
Voltarei a este bosque
novamente
se este verão voltar

19
Caminhemos sobre a relva
mas calados
para ouvir o seu recado

20
Ouço um sino
Penso antes
na aldeia

21
Meus seios
grata os beijaria
tão pequenos

22
Meus pés
os amo
segundos dedos mais compridos

23
Palavras calam
ou exigem
seu exato peso

24
Sento-me fiel
à beira deste lago
que viu meu corpo nu

25
Uma andorinha
solitária exige
este pleno verão

26
Formigas no açúcar
comovem
minha generosa mesa

27
Sol pleno
pródigo olhar
nesta manhã qualquer

28
Batidas de martelo
ocorrem
fora e dentro

29
Piano oculto
som esconde
a cauda imensa

30
Amores meus
acompanhem-me
subo esta colina

31
Mortos queridos
voltem sempre
à alegre memória

32
Pinto o quadro deste dia
Assim os tenho eternos
o quadro e o dia

33
Beijo-te os lábios
criança loura
pureza imortal

34
Subo esta ladeira
Ela me conta
de minha vida o peso exato

35
Coração dispara
Mais depressa sinto correr
juntos vida e amor

36
Sugestiva brisa brinca
escolhida mecha
em meu cabelo

37
Primeiro dia do Verão
Porei os meus segredos
na janela?

38
Olho minhas mãos
Meu coração
se abre para mim

39
Verso verdadeiro
Privilégio sutil
que tudo paga

40
Retorno a este jardim
onde a rosa colhi
da Alegria

41
Linchado tubarão
o mar era teu
não nosso

42
A sombra cai
tomba o dia
Poderá a noite levantar-se?

43
A chuva tamborila o peitoril
Assim também
o bom e o vil

44
Um besouro dourado:
ouro menos falso
que o falado

45
Nuvens pesadas
muito ao longe
já pairam sobre mim

46
Sol e chuva
Misto coral
bem ensaiado

47
Cavalo na colina
Corre o vento
em sua crina

48
Uma moeda
lanço ao ar
Prefiro não olhar

49
Um rosto belo
mais ainda
se feliz

50
Gato caminha
tão leve pisa
Coisas agradecem

51
Nesta ponte
sombras que adivinho
uma foi minha

52
Subo a montanha uma vez
e logo após
Meu pincel é que é veloz

53
Luzidia maçã
ante meus olhos
fruto da memória

54
Pequenina mosca
sozinha
não és o Mal

55
Jovem que passa
teu andar permanece
em mim não passa

56
Trovões ao longe
a Terra toda
casa anoitecida

57
Barco sobre o mar
Sempre alguém
em todo lugar

58
Um latido de cão
refaz o cão
ou sua memória?

59
Raios de luz
entre as tábuas
alma bailarina

60
Ouço a árvore crescer
se a olho
por querer


61
Areia molhada
pés esperam
ser beijados


62
Linha tênue
olhar antigo
não se cansa


63
Dourada folha
aérea e seca
sabe mais que o verde


64
Primavera em meu jardim
espero
amar assim


65
Quase Inverno
um grilo na vidraça
por onde a vida passa


66
Fumo no telhado
atrai mais que o olhar
aroma imaginado


67
Antes o jardim:
como criança
agarro a barba ao velho


68
Cerejeiras não tenho
Sua intenção:
visível em meu jardim


69
Uma chávena de chá
é já
pequena cerimônia


70
Belo arco
não sei
se quero a seta


71
Moça
do elevador
sorriso encantador


72
Sonho matinal
interrompido não sei
do acontecido


73
Galo canta
cidade enorme
Onde um galo?


74
Silêncio denso
sono da madrugada
Por onde ando?


75
Noite triste
lâmpadas gritam
janela insone



76
Curta carta
perfeição
tu e tua ilusão


77
Faróis
pneus latem
lembro-me do silêncio


78
Esta flor
abandono-a
sei-a bem de cor


79
Crianças no jardim
Como sabem brincar
tão lindo assim?


80
Alta colina
mostro-me a ti
lá de cima


81
Viajante que passas
vês meu nome
de ti te recordas...


82
Livro aberto
Olha esta página,
sabe de mim um pouco


83
Pequenas coisas:
um grilo, um vagalume
talo de grama...


84
regato triste
suas águas
como podem não mais encantar?


85
Meu epitáfio, isto:
flor plena
esculpida em dura pedra


86
Velha casa
não olho para trás
rumores me chamam


87
Peixe morto
por uma hora inteira
gloriosa vida!


88
colho a flor
não te esqueças
de mim


89
Agitada rua
meu olhar colhe borboletas
no prado


90
Sob esta árvore
crescem cogumelos
sombras da memória


91
Uma jovem
Lembranças
ressoam mais antigas



92
Flores do campo
enroscam-se nelas meus cabelos
quando as colho


93
O lento cair das sombras
Imóvel
não perturbo



94
Cidade rumorosa
ouço por dentro
sino do entardecer


95
Com o sol.
Não posso dele
me roubar


96
Mãos dadas
não falo
também não ouço


97
Abro a gaveta
retiro meu segredo
troco-o de lugar


98
De longe
um canto
te antecede


99
Noite longa
mariposa quieta
na vidraça


100
Arco perfeito
menina pula corda
silenciosa sineta


101
Réstia de sol
caligrafia de sol
no papel vazio


102
Música no ar
briga com outra
em minha mente

103
Silêncio da montanha
inesquecível
na planície

104
Violino raro
na cidade estridente
cândido se ouve

105
Jovem mulher
mão perfeita
irei contigo

106
Deito-me
não toco teu corpo
sonhamos juntos

107
Grande árvore
universo e sombra
estão em ti

108
Ser poeta
televisor ligado
quase impossível

109
Desenho nítido
grita no papel
entre letras

110
Mestre Saint-Saens
não soube ouvir
oboé da Primavera

111
Ser moderna
nem sempre
ser eterna

112
Como Da Vinci
vestir-me de luxo
para pintar

113
Orquestra inteira
régio milagre
utopia possível

114
Homem ou mulher
só posso dizer
na solitária ilha

115
Música diz
sempre mais
do que quis

116
Mulher velha
trágica
se foi bela

117
Candido pássaro
na palmeira
Canteiro de avenida

118
Dinheiro sobre a mesa
rápido
oculta-se do olhar

119
Beijo
memória dos lábios
insidiosa volta

120
Nada fales
olha este cristal
comigo dentro

121
Poeta triste
só não lamentes
tua poesia

122
Volto ao jardim
das horas
tão só minhas

123
Mulher feliz
bela me sinto
grata

124
Sentindo este momento
sou nele
imortal

125
Abraço envolvente
engole-me
dissovo-me em ti

126
Poema perfeito
todo dia
lembrando

127
Viver assim
canto ingênuo
balido de cabra

128
Corpo
abraçada
não sinto o peso

129
Estrada da montanha
orgulho humano
relevado

130
Meu pé na soleira
resume
vida inteira

131
Celebração
Servem vinho
Falta a água

132
Toca a sineta
Amor hesita
dos dois lados

133
Olho o tempo
Olhos pra dentro
Janela clara

134
Leve curva
descendente
ocaso dos lábios

135
Olhos tão claros
ofuscam
minha entrada

136
Seu riso
celebrarei
ou devo esquecer

137
Caminho pela estrada
não volto
chegarei na partida

138
Mesma mesa
de comer, de brincar
e escrever

139
Leio tua mão
as costas
não a palma

140
Pinto um quadro
Há um poema
aqui

141
Cristal perfeito
Redundância
do cristal

142
Lábios em flor
externando
teu desejo

143
Manhã triste
Cai
a velha árvore

144
Cortam-me a luz
Velando escrevo
este poema

145
Sorri o velho
ainda
sorri o velho

146
Durmo na relva
Acordam-me
as abelhas laboriosas

147
Espero alguém
O amor
já o tenho

148
Belo dia
Uma criança
quis beijar-me

149
Um cisco no olho
Pode ser
este poema?

150
Acordo com teu riso
Queres ver-me
admirar-te


151
Olho-me no regato
quisera
o caminho das pedras

152
Bosque escuro
Catedral de fungos
e raízes

153
Devo encontrar-te
Já estás
em mim

154
Casa abandonada
o coração
estala

155
Auspiciosa manhã
Não devo nada
O telefone toca

156
Percorro a trilha
na cidade
desconhecida trilha

157
Prazer desta manhã
condição
para este dia

158
Será esta campina?
Não mais
as mesmas flores

159
Alguém beijou-me os lábios
sorrateiro
enquanto eu dormia

160
Sono perfeito
Ergo-me
cheia de desejos

161
Meus cabelos
dourados
ouro efêmero


162
Inverno na alma
Nunca mais
inverno assim


163

Alegria de um momento
eterna
no coração gravada


164

Teu toque de mão
desperta
lembranças da pele


165

Pinto um quadro
que tão amado
não repetirei


166

Planto flores
onde guardava
tintas venenosas


167

As flores do meu corpo
me orgulham
frente ao espelho

168

Mulher
bela agradeço
não só ao espelho


169

Menina alegre
fica aqui
para sempre


170

Um montanha
ocupou-me
toda a manhã


171

Velha
acharei fútil
este pensamento?


172

Meu amor chega
Como sei
o meu amor?


173

Escrevo um verso
outro verso
ciumento do primeiro




174

Cidade estrangeira
o silêncio
me acordou


175

Não ouvir um grito
me assusta
Noite imóvel


176

Não há vento
lembro-me
de um barco


177

Copo cheio
busca
seu vazio


178

Tocas-me os lábios
não sabes
o perigo


179

Ando pelas ruas
Meu bairro
me conhece?


180

Quanto armazeno
lançando fora
no papel!


181

Riqueza imensa
minha vida
agradecida


182

Deus me quer
assim alegre
na pobreza


183

Amiga triste
mora comigo
o desafio


184

Volta amanhã
trazendo-me
meus beijos


185

Meu desejo
não permite
outro poema


186

Penetrada
sou
este verso



187

Criança que corres
para mim
sabes-me criança


188

Escrever assim
tantos versos
sublime teimosia


189

Olham-me assim
abanando a cabeça
sorrindo


190

Quando for velha
isto será
verso verdadeiro?


191

Dás-me uma flor
Não podes
te conter

192

Quero abrir-me
o corpo
como a alma

193

Posso
conter-me
neste simples viver?

194

Copo despejado
Pronto
para encher-se

195

Contaste-me um segredo
não sei
qual o segredo


196

Misteriosa vida
plena e clara
em seu mistério


197

Olha-me na alma
Estou nua
no papel


198

Teus lábios tocam
meus lábios
antes do beijo


199

Teus olhos
acariciam
meus olhos


200

Meu desejo
pérola quente
nacarada


201

Meu desejo
pérola tirada
de sua concha


202

Meus olhos
tocam
teu desejo


203

Onda quente
Surfas
minha pele


204

Manhã de inverno
meus passos
na ladeira


205

Estrela da tarde
queres brilhar
sozinha


206

Noite estranha
Não conheço
esta noite


207

As "vagas estrelas"
eu vi
do poema


208

Um homem questionou-me:
És bela,
por quê escreves?


209

Varro a casa
Nada preciso
esconder


210

Dei a mão à louca
Não quis mais
largá-la


211

Para pintar teu rosto
começarei
por teu silencio


212

Vês este poema?
Nasce
sob teus olhos



213

Amigos me rodeiam
Círculo
de fumaça


214

Olho as nuvens
Ah! conhecer
o seu pastor


215

Deste-me um anel
Pensas talvez
aprisionar-me?


216

Preparo o peixe
que trouxeste
engenhoso


217

Não fumes
sem olhar
a fumaça


218

Maravilhosa abelha
começarei
por tuas asas


219

Borboletas não vejo
Fazem falta
em meus dias


220

Não tenho mais jardim
Pinto flores
neste espelho


221

Hoje
tocaram-me o rosto
quase a alma


222

Meus dias
passam
como peregrinos


223

Onde ando
de casa
tão distante?


224

Meus sonhos
vagam
vagabundos


225

Não tenho ambição
nestes dias
perfeitos


226

Se quero muito
sofro
Queria não querer


227

Queria ouvir
aquela rã
do velho tanque


228


Por onde andas
Bashô?
Em que sendas?


229

Dói-me a graça
de viver
amando tudo


230

Trazes-me um presente:
um ninho,
para veres-me chorar



231

Noite escura
não olharei
tuas estrelas


232

Dispo-me
quando quero
encontrar-me


233

Olho-me no espelho
venero a Deus
em minha beleza


234

Renovo neste dia
meus votos
de alegria


235

Dinheiro não tenho
Escolhi viver
de poesia


236

Um acalanto
no andar
de cima!


237

Belas coisas
me cercam:
eu as atraio


238

Não posso viver
sem beleza
Alguém pode?


239

Teu riso
tua infância
me revela


240

Homem sem lábios
desconfio
de ti


241

Dizes-me amar-me
Nada pois
te falta


242

Amiga minha
Fronteira tênue
do desejo


243

Amigos meus
deixem sua flor
e partam


244

Serei monja
um dia?
Continuo a pintar


245

Tantos poemas
me enriquecem
no papel



246

Há quem viva
sem poesia
Meu espanto


247

Terei discípulos?
Não farei
esta pergunta


248

Meu nome: Mundo
vaticínio
de fidelidade



249

Sentirei falta
da beleza
deste mundo


250

Tudo tenho
sou
nada preciso


251
Árvore da vida
simples
macieira amanhecida


252

Ouço um choro
essa dor
agora é minha


253

Passas deslizando
tua elegancia
contamina



254

Não direi
o que escrito está
em minha testa


255

Ando pela vida
a vida me retribui
anda por mim


256

Agarro o sentido
não o momento
esse deixo passar


257

Se me queres
deixa-me
sou tua


258

Ouço murmúrios
Querem
minha atenção


259

Pipa no ar
alguém manda
recado auspicioso


260

Trovão
Zeus morreu
seus raios não


261

Pausa na estrada
respeito
pelo caminho


262


À sombra dos pomos

Ingênuo balanço

Alegres dispomos



263

Feliz me queira

Traz-me de volta

Velha macieira



264
Outono: folha ia
pondo-se rubra
uma paixão tardia


265
Solitária sombra
 Breve hiato
 Na estrada ensolarada




266
 Grande árvore
Silêncio profundo
A colina adormece



267
Sepulcro de cal
Dormirá o morto
Em paz afinal?

268
Os mortos gritam
Os corvos
Os imitam

269
Não há mais briga
Morte recupera
Sabedoria Antiga



270
Reverei este campo
Quando as flores voltarem
Ou nunca mais



271
 De nós sabemos
 O pouco

Que podemos



272
Riso ilumina
Noite triste

Afinal termina

273

Sinos dobram
Nem posso
perguntar por quem?

274
As cigarras cantam
Como outrora
Quando as cigarras cantavam

275
Pensas amar
Talvez o faças
Um dia de sol

276
Dia triste
Um belo dia
Para morrer de amor

277
Aceno distante
É sempre para mim
um aceno distante

278
Os dias deslizam
Silenciosos
Sobre as neves de agora

279
Meus sonhos
Nuvens douradas
No poente distante

280
Tenho um pássaro
 Libertei-o
 Ele está comigo

281
Suspiros na noite
Todos temos
Alguma dor

282
Clamores na noite
Todos temos
Alguma culpa

283
Um poema cai
 Das folhas
 Esquecido

284
Árvores amigas
Estranhamente
Indiferentes

285
Abraço a amiga
Penso amá-la
Se ela deixar-se

286
Um gato dorme
Sobre minha cama
E mal o conheço

287
o verão começa
sei que vou amar
como se último verão

288
 doces lembranças
 voltam
 mais doces

289
ando na relva
meus pés descalços
acariciam o mundo

290
minha sombra
olho esta íntima
desconhecida

291
escrevo um livro
para alguém 
que desconheço

292
pago um verso
na areia
não em mim

293
minhas pegadas
não na areia
mas  no mundo

294
os sapos cantam
me reconfortam
os sapos ainda cantam

295
cão no monte
latindo
para o horizonte

296
crianças lindas
enfeite precioso
renova o mundo

297
 cerejeira em meu jardim
 trás o Japão
 até mim

298
cansada estou
de saber
como vou

299
todos queremos
fechar a porta
em que batemos


300
 o ser humano
 ainda é pouco
 pra ser humano

301
meus dentes
me acompanham
sorridentes

 302
se canto
fico perto
de mim

 303
 se fujo
 em mim
 tenho refúgio

304
 o melhor dia
 é hoje
 de todos

305
Procuro sombra
Para que descanse
Minha laboriosa sombra

306
amoreira bela
minhas fugas
pela janela

307
minhas pegadas
não na areia
mas no mundo

308
 Os sapos cantam
 Me reconfortam
 sapos ainda cantam

309
Grilos barulhentos
Da minha estância
me alegram

310
crianças lindas
enfeite precioso
renova o mundo

311
cerejeira em meu jardim
trás o Japão
até mim

312
 recordações
 já as peneirei
ornam meus dias

313
meu tesouro 
é num soneto
chave de ouro

314
o que tenho
dei de mim
por isso tenho


315

um único poente
me converte
de repente


316

 tua tristeza
 revestida
 de beleza

317

mão estendida eu agarro
não porque precise
mas porque é tão raro



318

caminhar contra o vento
é tudo o que se pode
com um forte pensamento

319

o dia envelheceu
mas leal cumpriu
o que prometeu



320

o poeta virou estátua
que coisa estranha
que coisa fátua

321

diz a vetusta matrona
junto ao corpo do defunto
vou vender tua poltrona



322

arco-íris ao léu
ainda é coisa da terra
sonhando coisa do céu